Resiliência no Mundo Atual

Eduardo Penido

Muitas vezes me pergunto sobre o que é ser resiliente. De onde vem esta palavra?

Em física a resiliência é a capacidade que um material possui para resistir a um choque inesperado sem destroçar-se. É a resistência que um material  oferece a ação dinâmica e mede a elasticidade.

Em sociologia e psicologia a resiliência é definida como a fortaleza que uma pessoa possui para enfrentar adversidades.

Nossos antepassados necessitavam ser resilientes para resistir às demandas da vida.

Levantar antes do sol raiar para ir à lavoura, buscar água no riacho que ficava às vezes a quilômetros de casa para o banho ou para beber.

Há três gerações nossos avós fizeram isto. Não havia canos para levar a água. Eram caríssimos. Então somente os ricos poderiam ter esse “luxo”.

E água aquecida? Só no fogão à lenha. E trate de buscar a lenha para aquecer a água.

Quitutes feitos em casa, no fogão da “vovó”, que àquela época, era uma garotinha recém saída da puberdade e já estava na lida da casa, ajudando.

Afinal, quanto mais filhos, mais mão de obra para o trabalho.

E agora?

Os tempos mudaram. Há mais direitos. E os filhos querem, muitas vezes, menos deveres: roupas de marca, ver os filmes prediletos na TV ou jogar na internet.  E que a comida caia do céu.

‘Para quê devo me esforçar?‘

‘Para quê preciso estudar, se tudo está em minhas mãos?’

Não é este o pensamento implícito de nossa cultura que hiper-mega-super-plus valoriza o adolescente e a juventude? O mundo é dos jovens!

E viva o marketing direcionado aos jovens/adolescentes/crianças…

Que desta maneira não aprendem a se tornar resilientes, plenos de fortaleza para enfrentar os desafios da vida.

Já ouvi falar de um pai que, ao nascer o primeiro filho, elevou-o aos braços (Como era de costume fazer para agradecer aos deuses) e disse em bom tom: “Eu nunca te deixarei sofrer nesta vida, meu amor!”…

Fico pensando em como este pai deve estar sofrendo por não conseguir cumprir sua promessa…

Sem reconhecer que o sofrimento e a dor fazem parte de um crescimento saudável.

Mas a dor e o sofrimento fazem parte de um crescimento saudável? Parece que sim.

Você já sentiu uma coceira quando seus machucados estão cicatrizando? É a dor se apresentando em sinais mínimos. Minha filha pequena muitas vezes me disse “está doendo papai” quando tinha uma coceirinha, um comichão na perna ou nas costas.

E então nos confundimos?

Da mesma forma como confundem os adolescentes atuais o esforço para conquistar (a fortaleza) com a punição do trabalho (que vem do latim ‘tripalium’ – instrumento utilizado para subjugar os animais e forçar os escravos a aumentar a produção, por meio da tortura. Algo como instrumento de castigo).

Hoje os governos  dos países ocidentais gastam muito mais em bem-estar social e saúde do que gastavam há pouco tempo atrás.

Para se ter uma ideia mais exata, o valor gasto pelo governo federal por cidadão com políticas sociais mais que dobrou em termos reais entre 1995 e 2010, passando de R$ 1.471,46 para R$ 3.324,84 per capita.

Mas em nossa cultura ocidental, parece que estamos nos esquecendo, distraidamente, de que é o nosso direcionamento que pode, como uma somatória, modificar as condições à nossa volta.

E modificar as condições à nossa vota é importante, especialmente quando chegamos à conclusão de que esses mesmos filhos, sementes do amanhã, necessitarão de resiliência para se manter vivos.

Afinal, o mundo muda, mas as pessoas mais consistentes, fortes e preparadas continuam a ser a sua base.

Eduardo Penido
Diretor Acadêmico do Instituto Milton H Erickson de Petrópolis – IMHEP

Fontes:
Estrategias Psicoterapéuticas de Milton H. Erickson, Dan Short, Alom Editores, 2006
http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/09/governo-mais-que-dobra-gasto-social-por-cidadao-de-1995-para-2010.html

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