O Diálogo entre a Consciência e o DNA

O Aspecto Molecular da Consciência

Os sistemas contemporâneos de neuroimagem que hoje utilizamos rotineiramente, como a ressonância magnética funcional (fMRI), a tomografia computadorizada com emissão de pósitrons (PET scan), o SPECT(single photon emission computed tomography) e o mapeamento cerebral computadorizado (brain mapping), demonstram que nosso cérebro não diferencia imaginação de realidade. As áreas cerebrais ativadas durante a imaginação são as mesmas ativadas durante a observação da imagem real, ou durante uma percepção sensorial. Quando nosso cérebro entra em contato com novidades ambientais, a imaginação, as visualizações e as lembranças significativas que vivenciamos, assim como os insights psicoterápicos, as terapias mente-corpo, a reabilitação, a meditação, a oração, e mesmo o exercício físico, estimulam a liberação de mensageiros químicos, e o processo de expressão genética e síntese protêica nos neurônios. Estas proteínas sintetizadas são a base molecular da plasticidade cerebral, e irão estruturar sinapses e novas redes neurais. Este processo que a seguir descrevemos de modo mais detalhado, é o fundamento da memória e da interação cérebro-mente-consciência.

O processo se inicia quando o córtex cerebral, que faz a interface com o meio ambiente, é estimulado pelas novidades do dia a dia, e envia os estímulos para o hipocampo (veja figura 1) que é um sítio temporário de armazenamento de memórias aprendizagem e comportamento. Esta interação ocorre durante o sono, o sonho e o repouso, quando a mente consciente não está ativa.

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     Figura 1-O “diálogo atualizador” entre o córtex cerebral e o hipocampo.    O hipocampo é um local temporário de armazenamento de memórias, aprendizagem e comportamento (modificado de Rossi, 2008).
     Em um já clássico trabalho de 2001, Lisman & Morris descrevem assim este diálogo de atualização entre o córtex e o hipocampo:

“…a informação sensorial recente é direcionada através do córtex até o hipocampo. Surpreendentemente só o hipocampo aprende realmente neste momento – diz-se que ele está online. Mais tarde, quando o hipocampo está offline (durante o sono), repete a informação armazenada, transmitindo-a ao córtex. O córtex é considerado um aprendiz lento, capaz de armazenar memórias

duradouras somente como resultado da repetição da informação do hipocampo. O hipocampo é apenas um armazém temporário de memórias. Uma vez que os traços de memória se estabilizem no córtex, as memórias podem ser acessadas até mesmo quando o hipocampo é removido. Atualmente há evidência direta de que alguma forma de repetição ocorre no hipocampo… Estes resultados apóiam a idéia de que o hipocampo é o aprendiz veloz online que ‘ensina’ ao córtex, aprendiz mais lento offline”.
 O hipocampo, faz parte do sistema límbico, que é o circuito responsável por grande parte de nossas respostas emocionais. Portanto, através do circuito límbico as novidades memorizadas no hipocampo irão provocar manifestações emocionais no organismo. Este circuito límbico, atua através do hipotálamo, que é relacionado ao controle do sistema neurovegetativo (simpático e parassimpático), e da hipófise (pituitária), a maestra de todas as glândulas . Assim, por meio da estimulação do chamado eixo hipotálamo-hipófisário, são liberadas na corrente sanguínea moléculas-mensageiras hormonais, que irão ativar as glândulas endócrinas provocando a liberação de seus respectivos hormônios no organismo. Esses hormônios e os hormônios hipofisários, irão se ligar aos receptores das membranas celulares das células corporais e dos neurônios, provocando a liberação de segundos mensageiros proteicos no interior das células. Estes segundos mensageiros, por sua vez, migram para o núcleo das células onde sinalizam aos genes reguladores e efetores no DNA, para que iniciem a síntese protêica. A criação de novas sinapses (sinaptogênese) depende desta síntese contínua de proteínas para a formação de novas redes neurais, e de novas memórias, facilitando a plasticidade cerebral. Sem o perfeito processamento deste diálogo mente-cérebro-DNA, seria impossível a manifestação da vida inteligente e da consciência.

Lembramos ainda que o sistema imunológico também interage ativamente com este circuito mente-cérebro-gene, influenciando a liberação de imunotransmissores, e a ativação de células (linfócitos T e B, macrófagos, etc) produtoras de anticorpos, que são os responsáveis pelo rastreamento e eliminação de bactérias, vírus e células anormais, ou seja pelo reconhecimento do self e do não-self imunológico. Fenômenos experienciais como alegria, felicidade, compaixão, criatividade, tristeza, depressão, ansiedade, stress, especialmente quando se tornam crônicos, podem alterar a modulação informacional deste sistema psiconeuroendócrino-imunogenético , e diminuir a produção de neurotransmissores como as endorfinas, a serotonina, a dopamina  etc , influenciando a competência imunológica. A depressão persistente na imunocompetência pode ocasionar uma diminuição da capacidade dos anticorpos rastrearem células anormais, como por exemplo, as células cancerígenas e levar ao desenvolvimento de um câncer em nosso organismo.

É nesse contexto que iremos analisar o processo de percepção e/ou criação de novidades que ao estimular a geração de novas redes neurais e novas memórias, geram uma espiral dinâmica de interações moleculares contínuas entre a consciência, o cérebro, o sistema imunológico e o DNA.

Facilitando a Plasticidade Cerebral, Essência da Criatividade
Em 2006, Eric Kandel, laureado com o Premio Nobel de Medicina, por seu magnífico trabalho sobre os fundamentos da memória, e autor da surpreendente autobiografia científica Em busca da Memória,  descreveu sua trajetória científica em íntima relação com sua vida, de maneira humana e fascinante.
No capítulo “Um diálogo entre as sinapses e os genes” em seu livro In Search of Memory, Kandel detalha assim o processamento molecular da memória:
“ Propusemos que a expressão genética converte na sinapse, memória a curto-prazo em memória a longo-prazo, e que a sinapse estimulada pelo aprendizado, envia um sinal ao núcleo, para “ligar” (turn on) certos genes reguladores. Na memória a curto-prazo, as sinapses utilizam o AMP cíclico e a proteína kinase A para provocar a liberação de mais neurotransmissor. Hipotetizamos que na memória a longo-prazo esta kinase se move da sinapse para o núcleo, onde ela ativaria proteínas que regulam a expressão genética. Tínhamos que identificar o sinal enviado da sinapse para o núcleo, encontrar os genes reguladores ativados pelo sinal, e então identificar os genes efetores ligados pelo regulador … Descobrimos que enquanto um único pulso de serotonina aumenta o AMP cíclico e a kinase A, na sinapse, pulsos repetidos de serotonina produzem concentrações ainda maiores do AMP cíclico, fazendo com que a kinase A se mova para o interior do núcleo, onde ela ativa os genes. A kinase A recruta outra kinase, chamada MAP kinase, também associada com o crescimento sináptico, que também migra para o núcleo. Confirmamos então que uma das funções do treinamento sensibilizador repetitivo – o porque da prática levar à perfeição- é desencadear os sinais apropriados na forma de kinases que se movem para o núcleo. Uma vez no núcleo, o que essas kinases fazem? Sabíamos, de estudos recentemente publicados sobre células não-neuronais, que a kinase A pode ativar uma proteína regulatória chamada CREB (cyclic AMP response element-binding protein). Isto nos sugeriu que a CREB pudesse ser um componente chave do interruptor ( switch) que converte facilitação a curto-prazo nas conexões sinápticas, em facilitação a longo-prazo, e crescimento de novas conexões. Em 1990 descobrimos que a CREB é, com efeito, essencial para o fortalecimento a longo-prazo das conexões sinápticas relacionadas à sensibilização. Ao bloquear a ação da CREB no núcleo de um neurônio, bloqueamos o fortalecimento das conexões sinápticas a longo-prazo, mas não as de curto-prazo! Isto era impressionante: ao bloquear esta única proteína regulatória, bloqueava-se o inteiro processo de transformação sináptica a longo-prazo!
Então, mesmo tendo dito por longo tempo que os genes do cérebro são os governantes do comportamento, os mestres absolutos de nosso destino, nosso trabalho demonstrou que tanto no cérebro como na bactéria, os genes são também servos do meio ambiente. Eles são guiados por eventos do mundo externo”.
Em 2001 e 2006, Kandel demostrou que a expressão genética e a plasticidade cerebral podem ser facilitadas por psicoterapia:
“A psicoterapia ou o aconselhamento psicológico são efetivos e produzem mudanças à longo prazo no comportamento, por meio da aprendizagem, desencadeando mudanças na expressão genética que altera as conexões sinápticas provocando mudanças estruturais, que mudam o padrão anatômico das interconexões entre as células do cérebro. Com o aumento da resolução de imagens cerebrais, teremos avaliações quantitativas do resultado da psicoterapia…
De maneira simplificada: a regulação da expressão genética por fatores sociais faz com que todas as funções do corpo, incluindo todas as funções do cérebro, sejam suscetíveis às influências sociais. Estas influências serão incorporadas biologicamente às expressões modificadas de genes específicos, em células nervosas específicas, de regiões específicas do cérebro. Estas modificações socialmente influenciadas são transmitidas culturalmente”.
Hoje, imagens de ressonância funcional de alto campo, como a que reproduzimos abaixo, da revista inglesa NewScientist, demonstram em tempo real, tal como previu Kandel, a dinâmica entre o córtex e o hipocampo:
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Figura 2 – De sua localização central, o hipocampo (amarelo) conecta regiões distantes do córtex (vermelho) envolvidas em uma lembrança particular. Nesta imagem, o cérebro foi tornado semitransparente, e se superimpôs uma imagem de ressonância funcional da atividade cerebral com uma imagem de ressonância magnética de sua estrutura.
Em 2008, Ernest Rossi, conhecido terapeuta ericksoniano, utilizou esta constatação de Kandel para descrever um modelo psiconeurocientífico por meio do qual a psicoterapia e a hipnose terapêutica, seriam capazes de estimular a plasticidade cerebral por meio de “um diálogo criativo com nossos genes”
Afirma ele : A psicoterapia e a hipnose terapêutica podem ser descritas por um modelo neurocientífico que demonstra serem estas técnicas capazes de estimular a plasticidade cerebral, e gerar um dialogo criativo com nossos genes”.
Figura 2 – De sua localização central, o hipocampo (amarelo) conecta regiões distantes do córtex (vermelho) envolvidas em uma lembrança particular. Nesta imagem, o cérebro foi tornado semitransparente, e se superimpôs uma imagem de ressonância funcional da atividade cerebral com uma imagem de ressonância magnética de sua estrutura.
Em 2008, Ernest Rossi, conhecido terapeuta ericksoniano, utilizou esta constatação de Kandel para descrever um modelo psiconeurocientífico por meio do qual a psicoterapia e a hipnose terapêutica, seriam capazes de estimular a plasticidade cerebral por meio de “um diálogo criativo com nossos genes”
Afirma ele : A psicoterapia e a hipnose terapêutica podem ser descritas por um modelo neurocientífico que demonstra serem estas técnicas capazes de estimular a plasticidade cerebral, e gerar um dialogo criativo com nossos genes”.

Seu modelo nos fascina pela possibilidade de sua aplicabilidade em todos os campos do conhecimento, por meio de uma nova Bioinformática, a ciência que descreve os processos de transdução da informação durante a interação mente-corpo-gene Classicamente o processo de criatividade, capaz de estimular a sinaptogênese gerando novas redes neurais e novas memórias, é compreendido como um processo de quatro estágios:

Estágio um: Ter uma idéia e começar a trabalhar no problema     

Estágio dois: a difícil experiência de lutar tentando resolver o problema    Estágio tres: O momento criativo. Um ” flash of insight”.    Estágio quatro: A feliz solução do problema   Estes quatro estágios foram identificados tanto nas Humanidades quanto nas Ciências e na Psicologia o que mostra a existência dos mesmos processos psiconeuroendócrino-imunogenéticos em jogo, em todas as atividades humanas.

Em seu livro  The New Neuroscience of Psychotherapy  de livre acesso  online, Rossi nos mostra que o processo criativo de quatro fases , tem sua correspondência no processamento dos quatro níveis psicobiológicos da interação mente-corpo-gene durante a expressão genética e o processo de plasticidade cerebral. Abaixo ampliamos e especificamos mais detalhadamente esse processamento molecular de quatro níveis:
1-A informação do mundo exterior codificada nos neurônios do córtex cerebral e no hipocampo é transformada no sistema límbico-hipotalâmico-pituitário em moléculas mensageiras (hormônios), que conduzem pela circulação a informação até os receptores das membranas celulares
2- Os receptores nas membranas celulares, transmitem o sinal, via segundos-mensageiros  protêicos como a kinase A, ao DNA no núcleo da célula, onde genes reguladores comunicam aos genes efetores para transcrever seu código para o RNA mensageiro (RNAm).
3- Os RNAm transportam a mensagem genética do núcleo das células para os ribossomos no citoplasma, organela na qual se processa a síntese de proteínas. Esta transcrição do código genético, ocorre por meio da justaposição, um a um, dos aminoácidos selecionados a partir de cada tríade trazida pelo RNAm copiadas da linguagem do DNA do núcleo. Estas tríades são letras do alfabeto genético, a linguagem da vida, formadas pela sequência de três das quatro bases nitrogenadas – A adenina, T timina, G guanina e C citosina. Cada tríade corresponde a um dos 20 aminoácidos essenciais encontrados na natureza, disponíveis no citoplasma da célula. Esses aminoácidos no citoplasma da célula, são conduzidos ao ribossomo durante a síntese protêica, por um outro tipo de RNA, o RNA transportador (RNAt). Uma sequência de aproximadamente trinta aminoácidos unidos em sequência constitui uma proteína. As proteínas assim sintetizadas, são as estruturas últimas de cura do corpo e irão atuar em nosso organismo como:

a)       Proteínas estruturais

 Qualquer forma de cura ou regeneração orgânico-celular necessita de proteínas para se concretizar, pois as membranas celulares são constituídas por proteínas e lipídios.

b)       Proteínas funcionais

Representadas pelas Enzimas e Anticorpos.
Enzimas são proteínas funcionais que facilitam as dinâmicas energéticas, aumentando a velocidade das reações químicas celulares, sem aumento de temperatura, através de reconhecimento estereoquímico (uma forma de cognição). Anticorpos são proteínas funcionais denominadas imunoglobulinas, que possuem a função de reconhecer e destruir células bacterianas, vírus invasores, e células mutantes como as células cancerígenas.

c)       Proteínas receptoras

Funcionam como receptores e como canais transdutores de informação, nas membranas celulares.

d)      Proteínas-mensageiras

 São moléculas transportadoras de informação como os hormônios.
4) As moléculas-mensageiras funcionam como uma espécie de “memória molecular” sendo capazes de evocar memória dependente de estado, aprendizagem e comportamento nas redes neurais do cérebro.
Plasticidade Neural e Terapias Acadêmicas e Alternativas
Estimulamos a plasticidade cerebral com as novidades que entramos em contato, portanto qualquer forma de terapia seja ela alopática, homeopática complementar, alternativa, noética ou integrativa – e isto é de importância fundamental para o entendimento dos mecanismos de cura tanto dos tratamentos acadêmicos quanto dos tratamentos alternativos –  provocarão mudanças nas redes neurais, na criação de novas memórias e geração de mais neuroplasticidade. Este dado, torno a dizer, é de fundamental importância, para compreendermos os mecanismos de ação, e interpretarmos os processos de cura em jogo nas terapias alternativas e acadêmicas. Neste contexto psiconeuroendócrinoimunogenético todas as formas de terapias, sejam elas acadêmicas ou alternativas, são válidas, pois estimulam os genes a expressar um código-DNA para sintetizar proteínas, que são as estruturas ultimas de cura do organismo, ie, “máquinas moleculares” promotoras da cura mente-corpo.
 Este ciclo completo de comunicação e cura mente-corpo-gene, assim como a maior parte das atividades de nossa vida diária que levam comumente cerca de 90 -120 minutos para se concretizar, se relacionam com a liberação na circulação de diversos hormônios ativadores e inibidores da atividade celular. Esses hormônios, como o cortisol, a adrenalina, a testosterona, o hormônio do crescimento, o DHEA (dehidroepiandrosterona), e inúmeros outros neuropeptídios e neurotransmissores, possuem ciclos de liberação na circulação de mais ou menos 120 minutos, conhecidos como “Ciclos Ultradianos”, em contraste com o “Ciclo Circadiano” de 24horas. Em Cronobiologia este ciclo é conhecido como “Ciclo Básico de Repouso-Atividade” ou BRAC , na sigla em inglês.
Kandel (2006) demonstrou, que o Ciclo Ultradiano Básico de Atividade e Repouso (BRAC) quando estimulado por sinais novos e estimulantes do meio ambiente “liga” os genes   atividade–dependentes,   desencadeando a síntese de novas proteínas, facilitando a sinaptogênese e a plasticidade cerebral. Este processo de interação mente-cérebro, cérebro-corpo, e célula-gene, leva cerca de 90 a 120 minutos para se concretizar, sendo que a última etapa, célula-gene, gasta somente 20 minutos. Segundo Rossi, esta janela de tempo demonstra o tempo ideal para a realização da psicoterapia. Com efeito, este timing permitiria ao paciente criar novas redes neurais, estimulando a neuroplasticidade a partir dos insights surgido durante a psicoterapia e a estimulação corporal, se estiver realizando uma terapia mente-corpo.
E mais ainda, Rossi cita autores que demonstraram que este processo, pode ser representado por uma curva proteômica que demonstra a energia para o dobramento das proteínas nos neurônios, e por uma curva genômica representando a expressão genética para genes de expressão imediata como o c-fos, e mais 10 outros genes.
 

Consolidando a Memória

 O neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro e col., em 2002 e 2004 , demonstrou que quando experienciamos novidades significativas, enriquecimento ambiental, ou quando nos exercitamos durante o estado de vigília, o gene zif-268 é expressado durante o sono REM, relacionado aos sonhosSegundo ele:
 a reverberação neuronal sustentada durante o sono de ondas lentas, é imediatamente seguida por expressão de genes relacionados à plasticidade durante o sono REM, o que explica o benefício do sono na consolidação de novas memórias”.
Este gene zif-268 é um gene de expressão imediata relacionado a estados comportamentais e associado à geração de proteínas e fatores de crescimento neuronal que facilitam a plasticidade cerebral.
      Em 2008, Ribeiro revelou a existência de “ciclos de plasticidade”, relacionados a três ondas espaço-temporalmente distintas da expressão do zif-268, que seinicia no hipocampo 30 minutos após estimulação, ainda durante a vigília, com propagação para áreas extra-hipocampais distais, durante os dois episódios subsequentes de sono REM. Cada onda reguladora ascendente (“up-regulation”) do zif-268 foi interrompida pelo próximo episódio de SWS (sono de ondas lentas, não relacionado ao sonho), indicando a existência de ciclos recorrentes de plasticidade, conforme os dois estados de sono alternavam.
As implicações terapêuticas desse processo são imensas, pois os sonhos funcionam como replayscriativos, e a reverberação neuronal durante o sono de ondas lentas (sem sonhos), seguida pela expressão de gens relacionados à plasticidade cerebral durante o sonho, irão gerar transformações criativas na mente e no comportamento. Ao utilizarmos a janela de tempo deste ciclo de expressão genética e plasticidade cerebralpara consolidar a reconstrução do medo, do stress, das memórias traumáticas e dos sintomas emocionais, durante a psicoterapia, a hipnose terapêutica, e as terapias mente-corpo, realizando o “dialogo criativo com nossos genes”, proposto por Rossi , aumentamos enormemente a possibilidade de sucesso em nossa intervenções terapêuticas.
Nossa experiência clínica nos vem demonstrando que a terapia auxiliada pela indução de estados amplificados de consciência, como a meditação, a oração, a visualização criativa, o relaxamento, são mais eficazes se respeitarmos esta sabedoria da natureza, esta janela de tempo de 90-120 minutos, do processo de interação mente-cérebro-gene. É muito importante  orientarmos o paciente quanto à necessidade de um sono repousante, para que através dos ciclos de plasticidade possa consolidar o que foi percebido e compreendido como relevante durante o processo terapêutico .
 Em resumo, quando despertamos do sono, sonho, contemplação, meditação, oração, ou ao realizarmos alguma forma de terapia, seja ela acadêmica ou alternativa, ou mesmo quando em nossa vida diária entramos em contato com novidades significativas, estamos facilitamos o diálogo criativo entre o córtex , o hipocampo, o sistema límbico, o sistema imunológico e o DNA, processo fundamental para a vida e a manifestação da consciência.
Como estas transformações naturais da mente, a modulação da expressão genética e a plasticidade cerebral são suscetível às influências ambientais e sociais, isso permite fazermos uma escolha entre o que Rossi denomina “resposta ultradiana de cura” e “resposta ultradiana de stress” que ocorrem naturalmente durante o dia, a cada duas horas aproximadamente:
 “Propomos que o estresse crônico induzido por ignorar e pular esta fase natural de repouso do Ciclo Básico de Repouso-Atividade é uma fonte primária de desordens psicossomáticas que podem ser resolvidas mediante terapia mente-corpo via hipnose terapêutica” ( Lloyd e Rossi, 1992, 2008; Rossi & Nimmons, 1991).
Podemos ou não, desfrutar a fase natural de repouso-cura do ciclo. Se optarmos, por esta Resposta de Cura, obedecendo à sabedoria sistêmica da interação mente-corpo, podemos vivenciar as seguintes etapas segundo Rossi:
RESPOSTA ULTRADIANA DE CURA
1. Sinais de Reconhecimento do BRAC
Aceitação do chamado da natureza para relaxar, e da necessidade de repouso e recuperação de força e bem estar, desencadeando uma experiência de conforto e gratidão.
2. Respirar Profundamente
A respiração mais profunda chega naturalmente após alguns momentos de descanso. Sinal de que você está penetrando em um estado mais profundo de relaxamento e cura. Explore o profundo sentimento de conforto que chega espontaneamente. Relembre as possibilidades de comunicação e cura mente-gene, com uma atitude “compassiva e desapaixonada”.
3. Cura Mente-Corpo
Fantasia espontânea, memória, imaginação ativa e estados numinosos são orquestrados para a cura e reenquadre da vida. Algumas pessoas tiram uma “soneca”.
4.Rejuvenescimento e Despertar
Despertar natural com sentimentos de serenidade, clareza e cura e um sentimento de melhora do desempenho e bem estar.
 
Se ao contrário, como frequentemente ocorre, optarmos pela Resposta de Stress, então teremos a seguinte sequência de eventos:
 SÍNDROME ULTRADIANA DE STRESS:
1. Rejeição do Chamado da Natureza
Rejeição do chamado da natureza, para a necessidade de repouso e
recuperação de força e bem estar, ocasionando uma experiência de stress e fadiga.
2. Liberação Hormonal
O esforço contínuo frente à fadiga leva à liberação de hormônios de stress provocando um curto-circuito no ciclo de repouso ultradiano. O desempenho prossegue às expensas de um desgaste oculto, gerando mais stress e necessidade de estimulantes artificiais como cafeína, nicotina, álcool, cocaína etc.
3. Mal Funcionamento Orgânico
Aparecem muitos erros no desempenho, memória e aprendizagem. Problemas emocionais, como depressão e irritabilidade tornam-se manifestos. Você pode ficar abusivo e descontrolado consigo e com os outros.
4. O Corpo Rebelde
Sintomas Psicossomáticos clássicos lhe dominam e você finalmente tem que parar e descansar. Fica uma sensação persistente de fracasso, depressão e doença.
Compreendendo o stress
 Selye, criador do termo stress, define o stress como “um estado de tensão do organismo quando obrigado a utilizar suas defesas para enfrentar qualquer situação desafiadora”.
Quando estressados   mobilizamos energia por meio do aumento da liberação da glicose, de oxigênio, de cortisol, e de adrenalina, aumentando o tônus cardiovascular, a frequência respiratória, melhorando a cognição e a memória-dependente do hipocampo, aumentando a liberação de dopamina nas vias de prazer, e suprimindo a reprodução, a imunidade, o crescimento, e a digestão.
Se a situação estressante se tornar crônica, os efeitos do stress a longo-prazo no organismo irão provocar diminuição da liberação de glicose, piora da função hipocampal e da memória com atrofia neuronal, diminuição da plasticidade sináptica, inibição da neurogênese, lesão e morte de neurônios, diminuição da liberação de dopamina, aumento da função da amigdala (relacionada ao medo e à ansiedade), ocasionando mudanças eletrofisiológicas e estruturais, e piora da função do córtex frontal e de sua função executiva, também desencadeando mudanças eletrofisiológicas e estruturais.
 A não-resolução da situação crônica de stress irá desencadear o aparecimento das chamadas Doenças de Adaptação que são desordens orgânicas relacionadas ao stress, como  hipertensão stress-induzida, doença cardíaca, derrames, diabetes, miopatias, síndrome da fadiga crônica, fibromialgia, ulceras, colite, amenorréia, impotência e diminuição da libido, nanismo psicogênico, aumento do risco de doenças, morte dos neurônios, notadamente no hipocampo, levando à perda progressiva de memória e até ao desenvolvimento de estados demenciais .
Quando alteramos o fluxo natural de informação, vivendo uma vida estressante , modificamos as liberações hormonais ultradianas e interrompemos o fluxo de inteligência que sustenta a vida (segundo a Medicina Ayurvédica tradicional da Índia, a doença é a interrupção do fluxo natural de inteligência).
Estamos sendo continuamente criados e reestruturados (rewired) durante toda a nossa vida! Hoje sabemos que manter durante a vida a atividade cerebral ativada continuamente por estímulos renovadores, aumenta exponencialmente a densidade das conexões neuronais, permitindo a superação do processo natural de envelhecimento e atrofia cerebral, desacelerando ou até mesmo impedindo o aparecimento dos processos de demenciação. Permite ainda desenvolvermos uma melhor capacidade neuroendócrina e imunológica que nos leva a suportar melhor, e superar a maior parte das doenças do envelhecimento!
Eric Kandel, com toda sua vitalidade, alegria de vida e longevidade que percebemos o tempo todo assistindo ao DVD In Search of Memory, nos parece exatamente o tipo de pessoa que conseguiu fazer de sua vida um estímulo à inteligência e à integridade mente-corpo!
 

Neurônios-espelhos, plasticidade cerebral, e experiências numinosas

Neurônios-espelhos são células recentemente descobertas que são capazes de mediar a empatia na psicoterapia, a transferência na psicanálise, e o rapport na hipnose terapêutica e nas terapias mente-corpo (Rossi, 2008). São de uma importância fundamental na intermediação da aprendizagem e do comportamento social nos contextos culturais em que vivemos, pois “constroem pontes entre os mitos e metáforas religiosas psicoespirituais de todas culturas, e a consciência”.
Rossi nos lembra que as interações psicossociais entre as pessoas, assim como a atuação dos contadores de estórias, cantores, dançarinos, oradores, atores, e políticos de todo tipo capazes de “conduzir” uma audiência, estão na verdade, promovendo por intermédio da ação dos neurônios espelhos, a expressão genética, a criação de novas redes neurais e estimulando a plasticidade cerebral.
 “Procuramos construir pontes entre nossas experiências numinosas da arte , do belo, da verdade e da auto-criação em todos os níveis, da mente ao gene, fundamentando um novo approach bioinformático para a medicina, a psicoterapia e a reabilitação” (Rossi 2008).

Bibliografia selecionada da primeira parte   Erickson, M (1965/2007). A special inquiry with Aldous Huxley into the nature and character of various states of consciousness. In Rossi, E,Erickson-Klein, R & Rossi, K, (Editors). The Complete Works of MiltonH. Erickson. Vol. 1: The Nature of Hypnosis. Phoenix: The Milton H.Erickson Press. Gazzaniga, M, Ivry, R & Mangun, G (2002). Cognitive Neuroscience, 2nd Edition. Cambridge, Mass: The MIT Press. Henkin RILevy LM(2002). Functional MRI of congenital hyposmia: brain activation to odors and imagination of odors and tastes.J Comput AssisTomogr. 26(1t):39-61. Kandel, E (1998). A New Intellectual Framework for Psychiatry? American J.Psychiatry, 1998, 155, p 460. Kandel, E (2001). The Molecular Biology of Memory Storage: A Dialogue Between Genes and Synapses. Science, 294:1030-1038. Kandel, E (2006). In Search of Memory. NY: WW Norton. Kosslyn,S.M., & Thompson,W.L.(2000). Shared mechanisms in visual imagery and visual perception: Insights from cognitive science. In M.S.Gazzaniga (Ed.) The Cognitive Neurosciences. Cambridge , MA: MIT Press.Levy LMHenkin RILin CSHutter ASchellingerD. (1999).Odor memory induces brain activation measured by functional MRI . J Comput Assist Tomogr. Jul-Aug;23(4):487-98.Lisman, J & Morris, G (2001). Why is the cortex a slow learner? Nature, 410,248, 249. Lloyd, D & Rossi, E (Eds.), (2008). Ultradian Rhythms From Molecules to Mind:A New Vision of Life. NY: Springer. Locher, C, Nicoll, R, Malenka, C, & Muller, D (2000). Synaptic plasticity and dynamic modulation of the postsynaptic membrane. NatureNeuroscience 3, 545-567. Qakley, D, Deeley, Q & Halligan, P (2007). Hypnotic depth and response to suggestion under standardized conditions and during fMRI scanning.International Journal of Clinical and Experimental Hypnosis, 55, 32-58. Rainville, P (2002). Brain Mechanisms of Pain Affect and Pain Modulation. Current Opinion in Neurobiology, 12, 195–204. Ribeiro, S, Gervasoni, D, Soares, E, Zhou, Y, Lin, S, Pantoja, J, Lavine, M &Nicolelis, M (2004). Long-lasting Novelty-induced Neuronal Reverberation During Slow-wave Sleep in Multiple Forebrain Areas.Public Library of Science, Biology (PLoS), 2 (1), 126-137. Ribeiro S, Xinwu S, Engelhard M, Zhou Y, Zhang H, Gervasoni D, Lin SC,Wada K, Lemos NAM, Nicolelis MAL (2007). Novel Experience Induces Persistent Sleep-dependent Plasticity in the Cortex but not in the Hippocampus. Frontiers in Neuroscience 1:43–55. Ribeiro, S, Simos, C, and Nicolelis, M (2008). Genes, Sleep and Dreams. In Lloyd, D and Rossi, E (2008). Ultradian Rhythms from Molecules to Mind: a New Vision of Life. NY: Springer. Rossi, E (1972/2000). Dreams, Consciousness & Spirit: The Quantum Experience of Self-Reflection and Co-Creation. (3rd Edition of Dreams & the Growth of Personality). NY: Zeig, Tucker, Theisen. Rossi, E (2007). The Breakout Heuristic: The New Neuroscience of Mirror Neurons, Consciousness and Creativity in Human Relationships:Selected Papers of Ernest Lawrence Rossi. Phoenix, Arizona: The Milton H. Erickson Foundation Press. Rossi, E (2008). The Neuroscience of Therapeutic Hypnosis, Psychotherapy, and Rehabilitation. In Rossi, E, Erickson-Klein, R. Rossi, K (Eds.) acesso livre online Rossi, E & Nimmons, D (1991). The Twenty-Minute Break: The Ultradian Healing Response. Los Angeles: Jeremy Tarcher. Distributed by: NY:Zeig, Tucker, Theisen. Rossi, E, and Rossi, K (2008). Open questions on mind, genes, consciousness,and “”>Rossi, E, Rossi, K, Yount, G, Cozzolino, M & Iannotti, S (2006). The Bioinformatics of Integrative Medical Insights: Proposals for an International PsychoSocial and Cultural Bioinformatics Project. Integrated Medicine Insights, Open Access on line: http://www.lapress. com/integmed.htm.

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