Emoções Secundárias

Estaremos conversando a partir de agora sobre as emoções consideradas secundárias, lembrando que são aquelas que têm um papel importante na vida dos grupos sociais, pois elas incorporam princípios morais e formam a base para sistemas éticos. Cada cultura tem seu repertório de regras e normas sociais capazes de desencadear mais ou menos certas emoções.

1º Culpa

Uma emoção secundária bastante conhecida por todos nós é a culpa. Quem nunca se sentiu culpado por algo que tenha feito ou deixado de fazer? O sentimento de culpa é bastante desagradável e costuma levar um tempo dentro da gente. Ele nos oferece a oportunidade de revermos e repararmos nossos atos e não mais repetirmos determinados erros. Pessoas com transtornos de personalidade, como na psicopatia, podem não manifestar essa emoção e isso gerar situações nefastas.

A culpa foi observada como uma emoção muito mais comum dentro de grupos de famílias, lugar onde temos mais chances de sentir diretamente as consequências dos erros cometidos, através das vinculações. Algumas ideias aprendidas podem ser disparadoras constantes do sentimento de culpa, por isso, vale revisar certas crenças e sua validação em nossa atualidade. Ao nos lançamos em novas aprendizagens e significados, certos sentimentos associados podem diminuir de intensidade e até passar.

Quando éramos crianças, ainda não tínhamos o desenvolvimento necessário para estarmos à frente das responsabilidades do viver, não só para cuidarmos da gente mesmo como para estarmos no mundo em consonância com o respeito entre pessoas. O senso de responsabilidade do adulto vai tomando lugar no processo de crescimento, em substituição à culpa infantil. A culpa tem como utilidade também nos fazer crescer e nos tornar mais responsáveis.

Que tal apropriar-se de sua responsabilidade diante da vida? Para Jean-Yves Leloup, o maior erro não é fazer a escolha errada, e sim “permanecer nas consequências negativas de nossos atos”.

2º Compaixão

A maioria das emoções secundárias, também chamadas de sociais, é recente na trajetória evolucionária e algumas podem ser exclusivamente humanas, como nos diz o neurocientista Antônio Damásio. Muitas espécies, em especial os primatas e grandes símios, apresentam os preâmbulos de algumas dessas emoções, como por exemplo, a compaixão pelo sofrimento físico. 

É bastante interessante observarmos que a compaixão está na base da experiência de pertencimento dos seres na grande teia da vida, onde de alguma maneira a dor e o prazer são naturalmente reconhecidos. Ao nos darmos conta que os outros seres são como nós, que sua motivação básica é estar bem e evitar o sofrimento, somos capazes de compreender muitos de seus comportamentos.

Daniel Goleman, renomado psicólogo, assim descreve essa emoção: “A compaixão é a sabedoria espontânea do coração”. Seu significado básico é “sentir com”, um reconhecimento de que o que você sente eu sinto. Para os budistas, é uma completa identificação com os outros e uma prontidão ativa para ajudá-los.

A compaixão, na atualidade, é compreendida pela neurociência como uma emoção curativa, pois atitudes compassivas expandem a vivência de sentimentos de bem estar e ativam respostas fisiológicas favoráveis ao organismo. Sentir compaixão por si mesmo, já é um grande passo no fortalecimento interno, ao acolhermos nossa realidade e recursos interiores. A cura individual passa então a ser coletiva, pelo poder multiplicador da inclusão, partindo de si para o outro que também sofre.

3º Vergonha

As emoções nos ensinam algo. Ao reconhecer as mensagens das emoções temos mais chances de agir adequadamente. Você já parou para observar para que serve a vergonha? Tanto a culpa como a vergonha estão diretamente vinculadas a aprendizagens sobre a vida em sociedade: valores, limites e possibilidades, normas de condutas e experiência de pertencimento. “O atrito da culpa causa o calor da vergonha” (Giovanni Frazzetto). Uma
diferença significativa entre as duas emoções é que a culpa é considerada um vivência particular, solitária e a vergonha se dá na esfera pública, diante do olhar do outro e do olhar que temos acerca de nós mesmos.

Sentir vergonha permite que regulemos nossos comportamentos sociais e que façamos revisões sobre a nossa autoimagem e autoestima. Aprendizagens limitantes e equivocadas sobre quem somos e o que “devêssemos ser” e, a falta de reconciliação com nossa história, podem intensificar a presença dessa emoção e torna-la prejudicial. Como nos diz Teresa Robles, todos nós somos um pacote completo, com defeitos e qualidades. Quanto mais integramos nossa realidade acolhendo nossas partes (ruins e boas) no todo que somos, mais nos liberamos de bloqueios emocionais e voltamos a fluir na vida.

Richard Davidson, psicólogo e pesquisador, descreveu o que chamou de estilo emocional do cérebro, que compreende seis dimensões que todos possuímos, e, uma delas se refere à sensibilidade ao contexto. Podemos nos encontrar nos extremos dessa dimensão e assim, apresentamos dificuldades para captar as regras convencionais de interação social, ou ficarmos muito antenados ao contexto, afastando-nos de nós mesmos. Ambas as situações favorecem a vivência do sentimento de vergonha, pela repetição dos conhecidos “micos”. A boa notícia é que podemos sair desses extremos, ao realizar práticas que promovam o autoconhecimento, como também o desenvolvimento da empatia e o uso de habilidades das inteligências intra e interpessoal. Das vergonhas que podemos sentir, existe uma que, ao nos reconciliarmos com a gente mesmo, tende a desaparecer, como nos fala Gonzaguinha em sua canção:
“…Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”

4º Orgulho

Temos aprendido que as emoções são verdadeiros guias internos, que indicam ações necessárias para a sobrevivência, como também para o nosso desenvolvimento, nos permitindo fazer frente às grandes questões da vida, em parceria com a mente racional. Chegou o momento de conversarmos sobre o orgulho, uma emoção pra lá de valiosa quando o assunto é autoestima, pois saudavelmente essa emoção é um pilar de sustentação para o amor próprio, pois revela reconhecimento de valor sobre nossa bagagem de vida, acolhendo erros e acertos, nossa falibilidade e nossa grandeza.

Na ecologia das emoções, tudo é uma questão de grau, de intensidade. Assim também acontece com o orgulho, quando em demasia se torna tóxico para todos os envolvidos. Pessoas orgulhosas quase sempre foram desvalorizadas e oprimidas. O instinto por trás desse orgulho instalado, passa pela necessidade de se sentir reconhecido e de restaurar o encontro consigo mesmo. Como nos diz Fernando Pessoa, “…e o sol, que peca só quando, em vez de criar, seca.” O brilho pessoal pode ser resgatado pelo autoconhecimento, numa jornada de auto aceitação e de compreensão da realidade.

Sentir orgulho pelo vivido é uma forma de abraçar a vida e sorrir para ela, fortalecendo-se amorosamente diante dos enfrentamentos da caminhada. Para Bert Hellinger, podemos ficar em paz agradecendo pelo vivido: “Agradecer é tomar o que me é dado, segurá-lo com respeito nas mãos. Acolhe-lo dentro de mim e em meu coração. Até percebo internamente: Agora é uma parte de mim”.

Do que você sente orgulho?

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