O Concerto para Quatro Cérebros.
Alice Taunay Cordeiro de Melo - Psicóloga e Hipnoterapeuta

O livro de Teresa Robles mostra-nos de forma clara e concisa que a hipnose ericksoniana é a chave natural para se chegar a um estado de transe, protegidamente (mente protegida para não dissociar), para liberar os recursos internos e promover mudanças, bem estar e crescimento, com o mínimo de sofrimento possível. Trata-se de um trabalho ímpar na clínica, que somente pela experiência pode-se avaliar a profundidade e a eficácia nos resultados, que ocorrem tanto no paciente quanto no terapêuta, que trabalham numa mesma sintonia de um verdadeiro “CONCERTO A QUATRO CÉREBROS”.
Relata em seu trabalho que ao interagirmos com a realidade exterior, construímos duas realidades internas, uma com cada um de nossos cérebros. A do esquerdo é a versão oficial que contamos sobre como as coisas aconteceram. A do direito constitui uma espécie de gravação de todas as sensações físicas de cada momento: as cores e as imagens que vemos, os sons que escutamos, os cheiros, os sabores, as texturas, os registros corporais e os nossos sentimentos que estiveram ligados à essas sensações. É importante lembrar que fica gravado, não “o que realmente aconteceu”, mas como o vivenciamos.

Diz que o fato de irmos acumulando aprendizados ao longo de nossa vida, implica, que a cada momento, fica mais fácil crescer, estar bem e ter sucesso. Milton H. Erickson e Carl Rogers sustentam que o homem tende, naturalmente, a crescer integrado, são e desfrutando. Por que aparecem então os problemas, os sintomas? Algumas circunstâncias difíceis que vivemos atrapalham o processo normal de crescimento, como se fossem formando nós, obstruções, que nos levam a crescer tortos, mancos, dificultando-nos o acesso aos aprendizados anteriores de nossa vida, obrigando-nos a permanecer amarrados ao passado, a uma única maneira de agir que se repete e que pode ter sido adequada num determinado momento, mas não em outros. Por exemplo, uma pessoa que foi muito agredida na sua infância, teve que aprender a não se aproximar dos outros para não ser ferida e a atacar para se defender. Conseqüentemente, continua reagindo assim, sem conseguir estabelecer relações próximas e machucando todo aquele que se aproxime independente de que tipo de pessoa seja.

Para ela, se for verdade que no inconsciente se encontram todas as nossas experiências e recursos, também é verdade que se acham muitas outras coisas. De acordo com a Psicanálise, integram o inconsciente, por exemplo, a energia livre, o instinto da vida e o instinto da morte, as pulsões de vida, a libido e as pulsões agressivas. Nele estão os registros de todas as experiências vividas e algumas delas podem corresponder a situações traumáticas ou muito dolorosas que, se aparecem num estado de transe, devem ser muito bem manejadas pelo terapeuta. Cada vez que estas divergências surgirem no processo terapêutico, uma das técnicas de sugestão a ser utilizada pelo hipnoterapeuta consistirá em conotá-las como experiências que fortalecem, simplesmente por tê-las sobrevivido.

Afirma que a hipnose possibilita o acesso aos recursos do inconsciente junto com os da consciência. O treinamento em hipnose ensina o terapeuta a utilizar, mais eficientemente, a comunicação, a promover uma melhor resposta no paciente, possibilitando que as suas intervenções causem maior impacto no processo de mudança. O trabalho é realizado utilizando os dois cérebros do paciente, juntamente com os dois cérebros do terapeuta, simultâneamente, sendo que esse último precisa deixar aflorar as suas intuições e sensações, bem como, possuir sólidos conhecimentos teórico-técnicos para apalpar os nós, enfiar os dedos e ajudar a desfazê-los. O terapeuta, junto com o paciente, está, até certo ponto, em transe, e ao favorecer mudanças nas fantasias do paciente, favorece mudanças nas suas e, portanto, nele mesmo. É um processo de co-evolução, como diria Gregory Bateson, do terapeuta e do paciente.

A autora propõe como uma primeira linha de trabalho, promover a integração. Integrar sensações e idéias, integrar os aspectos positivos e negativos de cada momento, de cada situação. O que na Psicanálise Kleiniana corresponderia a estabelecer relações de objeto total. A segunda linha de trabalho seria o paciente aprender a viver desfrutando todo o possível e aprendendo com as dificuldades. E a terceira linha de trabalho, implica em poder gerar alternativas, abrir novos caminhos para percorrê-los com a alma e com o corpo, livrando-se da esteriotipia ou compulsão à repetição. Quando vivemos uma situação traumática, a forma chocante como ela se deu dificulta, muitas vezes, a eliminação adequada dos afetos que a acompanharam, e esses tendem a reaparecer. De forma similar, quando não expressamos a agressão e esta se transforma em ressentimento, reaparece de forma encoberta, minando, pouco a pouco, nossas relações com os outros e machucando o corpo cada vez mais. Em ambos os casos é como se caminhássemos em círculos revivendo velhas marcas, sem poder tirar os olhos delas, nem ver adiante, nem ao redor. É, portanto, necessário romper esse ciclo, porque esses momentos traumáticos ficaram no passado, enquanto as mudanças, os recursos e o bem-estar, devem fazer parte do momento presente. M. Erickson utilizava as experiências da vida cotidiana, comunicava-se em diferentes níveis e de forma indireta, e assim, tinha acesso as vivências profundas do inconsciente de seus pacientes para reconstruí-las.

Breve resumo do livro “Concerto para Quatro Cérebros” de Teresa Robles

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Alice Taunay Cordeiro de Melo - CRP/5ª Reg. 29906
Psicóloga e Hipnoterapeuta. Especialista em Psicoterapia Psicodinâmica Breve, pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.
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